O Festival Curta Campo Grande dedicou parte de sua terceira edição ao reconhecimento de pessoas que, por diferentes caminhos, contribuem para fortalecer a cultura e o audiovisual. Neste ano, no último dia do evento (sábado, 31), Andréa Freire e Vinícius de Oliveira foram os homenageados do evento, enquanto Bruno Wendling e Fernando Lopes Lima receberam o Troféu Tuiuiú de Parceiro do Festival. As escolhas evidenciam a importância de profissionais que ajudam a construir o cinema dentro e fora das telas, seja pela realização de filmes, pela formação de novas gerações, pelo incentivo ao turismo cultural ou pelo acolhimento de iniciativas artísticas.
As homenagens reforçam o papel do festival na vida cultural da cidade. Ao reunir produções de diferentes regiões do Brasil e de outros países, abrir espaço para realizadores locais e promover encontros entre profissionais e público, o Curta Campo Grande amplia o acesso ao cinema e coloca a capital sul-mato-grossense em diálogo com o circuito audiovisual. É também uma oportunidade de valorizar quem trabalha para que histórias sejam produzidas, exibidas e encontrem seus espectadores.
Com 40 anos de atuação na cultura, a diretora e produtora Andréa Freire construiu uma trajetória marcada pela produção audiovisual, pela formação e pela valorização das narrativas locais. Entre as experiências que considera mais significativas estão o Circuito Popular de Cinema, que percorreu dezenas de municípios de Mato Grosso do Sul no início dos anos 2000, e as ações do Pontão de Cultura Guaikuru, que contribuíram para a formação de jovens realizadores. Projetos como Vídeo Índio Brasil e Ava Marandu – Os Guarani Convidam também aproximaram comunidades indígenas do audiovisual, criando oportunidades para que seus integrantes assistissem a filmes, participassem de oficinas e narrassem suas próprias histórias.
Andréa também dirigiu produções como as webséries “Campo Grande na Tela” e “Evoé – Histórias do Teatro em Campo Grande”, além do curta-metragem “Sem Paralelo”. Atualmente, coordena o Bonito CineSur. Para ela, essas experiências confirmaram a importância de reconhecer a memória e a identidade do território nas produções audiovisuais. Ao avaliar o cenário estadual, destaca o surgimento de uma nova geração interessada em atuar profissionalmente no setor, mas aponta a necessidade de políticas públicas permanentes para desenvolver a cadeia produtiva. “Temos uma geração de realizadores e realizadoras que buscam interagir profissionalmente com o cinema, e isso é muito positivo. Na contramão disso, há um despreparo da gestão pública para lidar com o setor”, observa.
A homenagem, recebida com emoção e surpresa, também foi uma oportunidade para revisitar quatro décadas de trabalho. Andréa destaca a admiração pela equipe responsável pelo festival e entende que a iniciativa contribui para consolidar a presença do cinema na cidade. “O empenho, a dedicação e o compromisso do Dannon, da Carol e da Bianca com a realização do festival e a afirmação da presença do cinema na cidade me dão a certeza de que estamos pavimentando um caminho muito importante”, afirma.
O ator Vinícius de Oliveira chega à homenagem em um momento simbólico: em 2026, completa 30 anos de carreira no audiovisual. Sua trajetória começou com a interpretação de Josué em “Central do Brasil” (1998), de Walter Salles, filme que ganhou reconhecimento internacional e marcou profundamente sua vida artística. A repercussão da obra abriu caminhos profissionais e permitiu que ele conhecesse diferentes experiências de realização cinematográfica. “O Central tem essa importância muito profunda na minha vida artística e pessoal. Foi o pontapé inicial para um movimento que até então eu não imaginava quando era criança”, conta.
Ao longo de três décadas, Vinícius ampliou sua atuação para além da interpretação. Trabalhou como assistente de direção, assistente de câmera e profissional de som, além de dirigir curtas-metragens, escrever roteiros e produzir. Essa vivência nos bastidores mudou sua compreensão sobre o trabalho coletivo necessário para realizar um filme. Segundo ele, cada profissional tem uma função indispensável para que a obra chegue ao público. “Não tem pessoa mais importante dentro de um set de filmagem. Todo mundo tem ali a sua importância, todo mundo precisa fazer o seu trabalho da melhor forma possível”, ressalta.
O ator também chama atenção para os desafios de viver de audiovisual no Brasil, especialmente diante da dependência de editais e da descontinuidade das políticas culturais a cada mudança de governo. Defende que a cultura e o audiovisual sejam tratados como políticas de Estado, com investimentos permanentes e atenção às diferentes regiões do país. Receber a homenagem em Campo Grande, conforme ele, representa o reconhecimento de uma trajetória dedicada ao cinema. “Quero me colocar como um trabalhador, um operário do cinema nacional. Tenho profunda paixão por essa arte e acho que ela é transformadora para o público, assim como transformou minha vida”, declara.
O Troféu Tuiuiú de Parceiro do Festival reconhece também a contribuição de Bruno Wendling, diretor-presidente da Fundação de Turismo de Mato Grosso do Sul (Fundtur-MS). Especialista em gestão e posicionamento de destinos turísticos, ele destaca a relação entre cinema, cultura e turismo como uma oportunidade de apresentar os territórios por meio de suas histórias, paisagens e personagens. “O cinema é um forte aliado na promoção do destino, da cultura local e das belezas naturais”, afirma.
Na avaliação de Bruno, festivais de cinema podem movimentar a cidade ao atrair profissionais do setor e espectadores interessados em acompanhar a programação, criando oportunidades para que visitantes conheçam Campo Grande. Ele acredita que, com continuidade, o evento pode consolidar esse fluxo turístico. Além disso, ressalta que iniciativas como o Curta Campo Grande fortalecem a identidade estadual e oferecem visibilidade aos trabalhadores da cadeia audiovisual. “É um evento que fortalece a identidade do Estado, fomenta a cadeia do audiovisual e dá oportunidade para produtores e trabalhadores da indústria apresentarem seu trabalho”, destaca.
Também parceiro do festival, Fernando Lopes Lima é ator, diretor teatral, autor, palhaço e gestor cultural. Fundador e integrante da Cia Teatro do Mundo, está à frente da Estação Cultural Teatro do Mundo, espaço que recebe parte da programação do Curta Campo Grande e se tornou um ponto de encontro para diferentes manifestações artísticas. A proposta, segundo ele, nasceu de uma relação afetiva com a cidade e do desejo de contribuir para a vida cultural de Campo Grande.
Inaugurada em 2022, a Estação Cultural reúne teatro, cinema, música, artes visuais, dança, literatura, feiras e atividades de formação, aproximando artistas e públicos. Fernando prefere definir o espaço como “interdependente”, em vez de independente, por entender que sua existência depende da participação e do envolvimento de artistas, trabalhadores da cultura e da própria comunidade. “Não há como existir sem os outros. Eu não conseguiria sozinho manter aquele espaço. É também responsabilidade do público, dos artistas”, explica.
Para Fernando, receber o troféu é um reconhecimento coletivo do trabalho realizado ao longo desses anos. Ele destaca a parceria com o festival e a oportunidade de acolher produções que nem sempre encontram espaço de exibição. “Fico feliz demais de ganhar esse troféu de parceiro do festival e, inclusive, se eu pudesse mudar a legenda, seria parceiro dos artistas de Mato Grosso do Sul”, afirma.
As quatro trajetórias ajudam a revelar diferentes dimensões da importância do Festival Curta Campo Grande: a formação de realizadores e espectadores, a valorização da memória e das identidades locais, a circulação de produções audiovisuais e a articulação entre cultura, economia e turismo. Ao reconhecer essas contribuições, o evento reafirma que o fortalecimento do cinema não acontece apenas durante as sessões, mas também no trabalho contínuo de quem cria, produz, apoia, forma público e abre espaços para a cultura.
O Curta Campo Grande é realizado pela Corixo Produções e contou com apoio da Fundação de Turismo de Mato Grosso do Sul (Fundtur), Secretaria de Estado de Turismo, Esporte e Cultura de Mato Grosso do Sul (Setesc), Governo do Estado de Mato Grosso do Sul, apoio institucional da Paradiso Multiplica e Fórum dos Festivais, promoção da TV Morena e parceria da Casa de Ensaio, Estação Cultural Teatro do Mundo, Flor & Espinho, Capivas e Óia Filmes.
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