Um, dois, três, quatro, cinco, seis, sete. A um. Uma derrota inesquecível, inesperada e trágica. Há 11 anos, no dia 8 de julho de 2014, a seleção brasileira sofria o fatídico 7 a 1, a maior goleada de sua história, em plena semifinal de Copa do Mundo, contra a Alemanha.
E pra piorar: o Brasil sediava a competição após 64 anos, quando também traumatizou seus torcedores com o eterno ‘Maracanazo’ – nome dado em alusão à derrota para o Uruguai, no Maracanã, na final da Copa de 1950.
Além da humilhação para os mais de 58 mil presentes no Estádio Mineirão, a goleada deixou marcas na identidade e na autoestima de todo o povo brasileiro, que persistem até hoje.
Seja para os torcedores ou jogadores – mesmo os que não estiveram em campo -, existe um antes e um depois do 7 a 1, que se tornou um marco na história do futebol e do país.
As seleções de Brasil e Alemanha chegavam em momentos distintos para a semifinal da Copa. Após os insucessos de 2010, com a derrota para a Holanda, e com a breve passagem de Mano Menezes, Felipão foi o escolhido, junto de Carlos Alberto Parreira, para comandar o Brasil.
O técnico do pentacampeonato mundial disputou e venceu a Copa das Confederações, em 2013, também realizada no Brasil, que animou e até iludiu os torcedores brasileiros. Na final, o Brasil derrotou a até então campeã da Europa e do mundo, a Espanha, por 3 a 0.
Do outro lado, a Alemanha vinha de um trabalho longevo do técnico Joaquim Löw, à frente da seleção desde 2006 e com o elenco base do Bayern de Munique campeão da Champions de 2013.
No Brasil, ainda que enfrentasse um cenário político polarizado, o clima era de festa, afinal, tinha a Copa do Mundo em seus gramados após tanto tempo. A canarinha não jogava um futebol deslumbrante, mas estava conquistando o que importa: resultados.
Na fase de grupos, a Seleção Brasileira venceu a Croácia e Camarões, por 3 a 1 e 3 a 0, além de um empate contra o México em 0 a 0, campanha suficiente para se classificar em 1º colocado de seu grupo.
Após finalizada a fase de grupos, o Brasil iria enfrentar o Chile nas oitavas de final, um adversário um tanto quanto ‘acessível’. Porém, o adversário deu muito mais trabalho que o esperado e esteve muito perto de eliminar o anfitrião.
A partida terminou em 1 a 1 no tempo normal e seguiu para a prorrogação. Nos 30 minutos adicionais, um susto para testar os cardíacos: o atacante Pinilla, do Chile, carimbou o travessão de Júlio César já aos 119 minutos de jogo. Nos pênaltis, brilhou a estrela do goleiro brasileiro, que defendeu a cobrança do próprio Pinilla, e classificou o Brasil.
Nas quartas, uma grande partida contra a Colômbia do artilheiro James Rodríguez e um golaço de falta de David Luiz. O Brasil foi superior e venceu por 2 a 1, mas, apesar da classificação, tinha (dois) grandes motivos pra se preocupar.
Quando se fala do confronto com os colombianos na Copa de 2014, é quase impossível não lembrar do nome de Zúñiga, o lateral que acertou uma joelhada em Neymar e o tirou da competição.
Sem a estrela do time, o desafio já era muito grande. Mas, ficaria ainda mais complicado quando Thiago Silva, capitão da seleção e referência defensiva, recebeu um cartão amarelo e ficou suspenso para as semifinais.
Agora, desfalcado de dois de seus grandes nomes, o Brasil depositava suas esperanças nos milagres de Júlio César, na “alegria nas pernas” de Bernard, e na experiência de Dante, que “conhecia os alemães”, além, é claro, na força de sua torcida.
Mas, se algum desses fatores tivessem funcionado, certamente esta reportagem sequer teria sido feita. Em campo, um passeio que nem o brasileiro mais pessimista, nem o alemão mais otimista poderiam imaginar.
A partida até começou equilibrada, com 10 minutos iniciais que não indicavam uma goleada para nenhum dos dois lados. Porém, após sair o primeiro gol, logo aos 11 minutos, foi ‘só ladeira abaixo’.
Müller, em jogada ensaiada e treinada de escanteio – reflexo da ótima equipe da Alemanha – abriu o marcador. Aos 23, Klose pegou rebote de Júlio César e fez o segundo. Um minuto depois, Kroos ampliou a vantagem para três, e logo em seguida, aos 26, para 4 a 0.
E ainda dava tempo de mais. Khedira, antes dos 30 minutos, fez o quinto. Os brasileiros mal tiveram tempo de digerir os primeiros gols, e quando olharam o placar, o jogo já havia acabado. 5 a 0 no primeiro tempo e o próprio Felipão admitiu que não era possível virar, e então tentaria arrumar a defesa no intervalo.
Não adiantou. É verdade que o Brasil voltou melhor do intervalo, e só não marcou porque Neuer fez defesas brilhantes. Muitos falam que a Alemanha ‘tirou o pé’, e, ainda que os jogadores neguem, é de fato muito difícil manter a seriedade e concentração quando o placar é largo.
Mesmo assim, o atacante alemão Schürrle entrou com ‘fome de gol’ e marcou mais dois na segunda etapa. Nas arquibancadas, os torcedores já não sabiam se aplaudiam os alemães, se vaiavam os brasileiros, ou se choravam pela tragédia.
No final da partida, ainda deu tempo de Oscar driblar Böateng e finalmente vencer Neuer, pra marcar o gol de “honra” – que honra? – e decretar um resultado histórico que ficaria pra sempre na memória do brasileiro: 7 a 1.
Não é nada simples tentar explicar o que aconteceu para o Brasil ter sofrido um massacre tão significativo. Para o técnico brasileiro, o time teve um “apagão”, sofreu quatro gols em nove minutos e perdeu o jogo nesse momento.
Já para os torcedores campo-grandenses, a diferença técnica e, sobretudo, mental, colaboraram para a goleada. O professor e historiador Ian Rari, apaixonado por futebol, explica que o 7 a 1 foi como “um acidente de avião”.
“Um acidente de avião, ele acontece por uma série de fatores pra resultar numa tragédia. Deram toda a responsabilidade pro Neymar, pra carregar o time. Tivemos um ciclo de Copa muito mal feito, primeiro com o Mano Menezes, depois com Felipão e Parreira”, conta. Ainda, afirma que o elenco da Alemanha era superior e que os desfalques aumentaram a pressão psicológica.
O torcedor Luciano Siqueira, de 44 anos, também acredita que o fator psicológico tenha pesado contra uma seleção experiente. “A qualidade o Brasil teve e sempre terá, mas eu creio que é uma questão emocional, né? Os jogadores muito jovens, contra uma seleção muito experiente, mas quanto a talento, o Brasil tem de sobra”.
Já para Silvio José, de 64 anos, o Brasil adotou a estratégia errada. “[O Felipão] ele tem que analisar o time, se o time é muito superior, tem que precaver mais com a defesa, com a marcação. Agora, quando se expõe demais o time, contra a Alemanha que estava poderosa, acaba perdendo mesmo”, explica.
A soma de todos esses aspectos pode ser uma das explicações para o placar tão elástico registrado no Mineirão. Um Brasil afobado e sem referências dentro de campo. Um time que abusava de ligações diretas, sem ideias e aproximações. Um elenco apático e sem poder de reação, que não representaram o tamanho de vestir a ‘amarelinha’.
“Todo dia um 7 a 1 diferente”. O vexame, que virou sinônimo de humilhação, permanece na memória dos brasileiros e ultrapassa as barreiras do esporte. Isso, é claro, tem a ver com a relação do futebol com o nosso país.
“O futebol é um símbolo do nosso país, um país de massas, da diversidade, e é nos estádios que pessoas de diferentes classes, diferentes correntes ideológicas se relacionam e convivem”, explica Ian.
A derrota humilhante para os alemães abala a autoestima do brasileiro justamente por colocar em xeque um motivo que costumava ser de orgulho. “A gente teve essa questão de ser um país colonizado, inferiorizado, e o futebol mudava um pouco isso. O Brasil gigante era o do futebol, o Brasil do campo, então a gente se orgulhava das grandes conquistas”, completa.
O 7 a 1, um grande marco histórico e cultural para o professor, também pode ser classificado com um trauma coletivo, resultado de uma relação direta do torcedor com o futebol.
Quem afirma isso é o psicólogo do esporte Edilson dos Reis, atualmente no Operário de Campo Grande.
“O trauma é uma resposta emocional a um evento que deixou feridas na memória e no conceito de identidade de uma pessoa. Ela pode sentir uma série de emoções negativas logo após o acontecimento terrível ou a longo prazo. Para alguns, lembrar do 7 a 1 é traumático e doloroso”, diz o especialista.
O sentimento de Ian é exatamente esse. Ele conta que até hoje não vê os lances do jogo e muda de canal se começa a passar na televisão. Outros torcedores também afirmam que o placar “ainda dói” e que “ficará marcado pra sempre”.
Além das consequências aos torcedores, o resultado também deixou marcas no futebol brasileiro e nos atletas, principalmente aos que estiveram em campo.
Ainda que o Brasil tenha sido campeão das Olimpíadas dois anos depois, contra a mesma Alemanha no Maracanã, o 7 a 1 sempre é (e será) lembrado em Copas e seguirá como um fardo a ser carregado por quem veste a camisa da seleção.
Para os jogadores daquele time, Edilson alerta que as consequências podem ter sido ainda maiores. “É fundamental realizar um acolhimento e um trabalho individualizado após uma derrota como essa, onde serão trabalhadas questões do stress, luto, autoestima, inseguranças, vergonha e principalmente a resiliência”, afirma.
Até os dias atuais, a seleção segue sofrendo de grande desconfiança por parte dos torcedores, e nunca mais teve a mesma empolgação após a goleada. Em campo, os atletas, que desempenham muito bem pelos seus clubes, parecem ‘sentir o peso da camisa’, e deixam a desejar pelo Brasil.
Portanto, o impacto da maior goleada da história do país é nítido, e, além de ficar marcado pra sempre na memória, deve permanecer doloroso ao menos até o país voltar a conquistar o mundo.
*Com supervisão de Guilherme Cavalcante
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