O feminicídio, que tem sido destaque recorrente na imprensa, segue como um dos principais desafios no enfrentamento à violência contra a mulher no Brasil. Só em 2025, foram registradas 1.568 vítimas, alta de 4,7% em relação a 2024. Desde a tipificação do crime, em 2015, ao menos 13.703 mulheres foram assassinadas no país por sua condição de gênero, o que revela a gravidade do problema. Os dados são do Fórum Brasileiro de Segurança Pública.
Em meio a esse cenário, um crime ocorrido em fevereiro deste ano se tornou o ponto de partida para a criação de uma tecnologia voltada à proteção de mulheres em situações de risco. Trata-se do +Mulher, uma ferramenta digital que permite o acionamento discreto de pedidos de socorro, sem precisar tocar no dispositivo e, por isso, sem levantar suspeitas durante uma possível agressão. A proposta é que o sistema funcione em segundo plano, mesmo com o aparelho bloqueado e a alguns metros de distância.
A ideia foi concebida pela empresária mineira Mila Xaves, que ficou em estado de choque ao receber a notícia de que sua prima, Priscila Beatriz Assis Teixeira, foi vítima de feminicídio, após recusar beijar o suspeito do crime, com quem estava negociando a compra de um celular. O caso aconteceu em Campos Altos, no Alto Paranaíba (MG).
Durante esse processo, Mila, que trabalha na área tecnológica, ficou por uns dias sem conseguir trabalhar. Com o tempo, esse momento de pausa deu lugar a uma reflexão que se transformou em propósito. "Esse silêncio virou uma chave. A partir daí, passei a investir no processo criativo e a pensar em soluções que pudessem reduzir a vulnerabilidade das mulheres em situações de violência", afirma.
A ideia, segundo a empresária, surgiu a partir de uma simples constatação. "Em momentos de ameaça, nem sempre é possível reagir ou acionar ajuda de forma evidente. Muitas vezes a mulher não consegue nem pegar o telefone ou fazer uma ligação", ressalta. Então, a desenvolvedora identificou que o celular, que está quase sempre à mão de todos, ou pelo menos por perto, seria um ponto de partida para a criação de uma ferramenta de proteção, explica.
Com experiência em projetos digitais, Mila, juntamente com os engenheiros de software Pedro Gandra e André Oliveira, desenvolveu o conceito de uma ferramenta que permite o acionamento de socorro de forma discreta e que não levanta suspeitas em uma situação de risco. "A proposta é que o sistema funcione em segundo plano, mesmo com o aparelho bloqueado e a alguns metros de distância, garantindo acesso rápido em caso de necessidade", revela.
Inicialmente, a ferramenta funcionará por meio de uma rede de até cinco contatos de emergência cadastrados pela própria usuária. A partir do momento do acionamento feito pela vítima, essas pessoas cadastradas, como familiares e amigos, vão receber as notificações insistentes informando que aquela pessoa está em situação de vulnerabilidade.
Ao acessar o alerta, os contatos terão acesso à localização em tempo real da usuária. Segundo a idealizadora, o objetivo é reduzir o tempo de resposta e facilitar que alguém próximo consiga prestar ajuda rapidamente.
A tecnologia, que está na fase final de testes, também prevê futuras integrações com autoridades de segurança pública, permitindo que a localização da vítima possa ser compartilhada com órgãos responsáveis. O sistema conta também com a criação de uma comunidade dentro da plataforma, com conteúdos e interações que incentivem o uso contínuo do aplicativo.
A comunidade dentro da plataforma também terá foco em conscientização e prevenção à violência contra a mulher, com envio de informações, conteúdos educativos e palestras online sobre o tema, segurança pessoal e vulnerabilidade nas ruas, fortalecendo a rede de apoio aos usuários.
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