A inteligência artificial deixou de ser apenas uma ferramenta tecnológica para se tornar um fator de transformação da cultura organizacional. À medida que avança no ambiente corporativo, a tecnologia amplia a produtividade e automatiza processos, mas também levanta questões sobre liderança, ética, responsabilidade e tomada de decisões.
Inspirado pela encíclica Magnifica Humanitas, publicada pelo Papa Leão XIV e dedicada à salvaguarda da dignidade humana na era da inteligência artificial, o especialista em Cultura Organizacional e CEO da DHEO Consultoria e da DHEO Educação, Adeildo Nascimento, defende que as empresas precisam discutir desde já quais limites desejam estabelecer para o uso da IA nas decisões que afetam pessoas.
Para o especialista, o momento histórico guarda semelhanças com a Revolução Industrial. Assim como a encíclica de 1891 refletiu sobre os impactos da industrialização na vida dos trabalhadores, o novo documento da Igreja propõe uma reflexão sobre os desafios trazidos pela inteligência artificial. "A pergunta volta mais de um século depois. Antes, o debate era sobre o trabalhador diante da máquina. Agora, o trabalhador está diante de sistemas capazes de analisar, recomendar e até decidir. O operário tornou-se cognitivo e o capataz pode ser um agente de IA", explica Adeildo.
O avanço da tecnologia confirma que essa transformação já está em andamento. Dados da Universidade de Stanford indicam que 88% das organizações utilizam inteligência artificial, enquanto quase um em cada quatro trabalhadores exerce funções com algum grau de exposição à IA generativa. As projeções também mostram que cerca de 59% da força de trabalho deverá passar por processos de requalificação até 2030.
Cultura organizacional
O principal debate não está mais relacionado à adoção da inteligência artificial, mas aos efeitos que ela produzirá sobre a cultura das empresas. A tecnologia já faz parte da rotina corporativa, muitas vezes sem que as próprias lideranças tenham plena dimensão desse movimento. "Toda grande inovação tecnológica altera a forma como as pessoas trabalham, se relacionam e tomam decisões", afirma Nascimento.
A imprensa de Gutenberg transformou o acesso ao conhecimento; a Revolução Industrial reorganizou o tempo de trabalho; a eletricidade modificou hábitos; o automóvel redesenhou a mobilidade; a internet mudou a forma de consumir informação. Agora, afirma, a inteligência artificial começa a alterar a capacidade de julgamento das pessoas e das organizações, justamente um dos pontos centrais levantados pela nova encíclica.
Julgamento humano
Embora a automação de tarefas represente ganhos de eficiência, Nascimento alerta que o maior risco surge quando a inteligência artificial deixa de apoiar decisões para assumir o papel de julgadora. Decisões relacionadas à contratação, promoção, demissão ou avaliação de desempenho envolvem critérios humanos que não podem ser integralmente delegados a algoritmos. Questões como responsabilidade, transparência e prestação de contas permanecem sendo atributos das lideranças, mesmo quando sistemas inteligentes participam do processo.
"O problema não é utilizar a IA para acelerar tarefas. O risco está em permitir que ela assuma o julgamento. Quando um algoritmo recomenda uma demissão, uma contratação ou escreve um feedback, quem responde por essa decisão? A responsabilidade continua sendo humana", pondera o especialista. Quando sistemas inteligentes passam a influenciar julgamentos, eles também começam a moldar comportamentos e, consequentemente, a cultura organizacional. Isso ocorre porque as decisões tomadas diariamente acabam consolidando valores, crenças e práticas dentro das empresas.
Nascimento identifica alguns sinais que já merecem atenção das lideranças. Um deles é a criação de uma cultura que valorize apenas velocidade, deixando o discernimento em segundo plano. Outro é a predominância de métricas e indicadores sobre aspectos ligados à dignidade humana.
O impacto da automação no desenvolvimento das equipes também deve ser considerado. Se a inteligência artificial passa a resolver grande parte das atividades, reduz-se o espaço para aprendizado, treinamento e formação de competências. "Além disso, quando a inovação é priorizada sem considerar seus efeitos sociais, aumentam os riscos de decisões descoladas dos valores da organização", destaca.
Cultura-alvo
Apesar dos desafios, a inteligência artificial pode ser incorporada às empresas sem comprometer sua identidade. Para isso, Adeildo Nascimento defende que as organizações estabeleçam previamente quais decisões poderão ser automatizadas e quais continuarão necessariamente sob responsabilidade das pessoas. Contratações, promoções, desligamentos, avaliações de desempenho, políticas de crédito, saúde, segurança e compliance são alguns dos processos que exigem critérios claros de governança e supervisão humana.
Este contexto exige princípios considerados fundamentais para uma adoção responsável da tecnologia. Entre eles, estão a manutenção da curadoria humana nas decisões críticas, a implementação de programas de requalificação profissional para trabalhadores impactados pela IA e o compromisso de que nenhum avanço tecnológico torne as pessoas invisíveis ou dispensáveis dentro das organizações.
Para Nascimento, a inteligência artificial será inevitável nas empresas. O diferencial competitivo, porém, estará na capacidade de preservar uma cultura organizacional baseada em valores humanos. "A tecnologia estará presente em praticamente todas as organizações. A grande questão não será mais quem usa inteligência artificial, mas quem conseguirá manter uma cultura humana forte o suficiente para orientar seu uso".
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